sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Quando o passado bate a porta

Texto de Giselle Almeida para o blog Comentar é preciso

O caçador de pipas, do afegão Khaled Hosseini, é um livro de memórias. Ficcional, mas bem que poderia ser autobiográfico. A cada página, o protagonista Amir narra suas lembranças como quem revira um baú antigo. Diante dos nossos olhos, surgem as ruas da cidade de Cabul de 1975, quando ele era apenas um menino de doze anos. Mas, numa tarde de inverno, acontece algo que vai marcá-lo para sempre. E mesmo agora, quase trinta anos depois, seu passado continua a atormentá-lo.

Hoje casado, escritor bem-sucedido, Amir adota os Estados Unidos como seu novo lar. Até que um telefonema lhe dá os motivos que faltavam para enfrentar seus medos. "É possível ser bom de novo", é o que ouve de um velho amigo. Seria uma chance de recuperar sua paz de espírito? Uma oportunidade de curar as feridas que nunca cicatrizaram?

Órfão por parte de mãe, Amir sempre se esforçou para corresponder às expectativas de seu pai, que não aceitava a covardia do filho nem entendia seu interesse pelos livros. O campeonato de pipas que se aproximava seria a chance de Amir conquistar a admiração que nunca teve. Bastava que ele mantivesse sua pipa no céu por mais tempo que as outras. Cortar a última delas e levá-la para casa seria seu grande feito. E Hassan, seu criado e também seu melhor amigo, foi buscá-la. Afinal, ele era bom nisso, o melhor de todos os caçadores de pipas. E sabia o quanto aquele troféu era especial para Amir: "Por você, faria isso mil vezes!".

Tudo muda, porém, a partir daquela tarde de inverno. Uma atitude transforma para sempre o destino dos dois meninos - um erro pelo qual Amir não consegue se perdoar e só vai ter a chance de reparar muito tempo depois, ao encontrar o menino Sohrab, um pedaço vivo do seu passado. Nesse retorno à sua Cabul natal, 26 anos mais tarde, Amir se sente um turista em sua própria terra: encontra um Afeganistão completamente devastado pela guerra e dominado pelo regime tirânico dos talibãs.

Ao mesmo tempo em que consegue dar nomes e rostos (ainda que imaginários) para as vítimas de uma violência que já dura décadas naquele país, O caçador de pipas é uma história forte e dolorosa. Uma história de pecados que não são perdoados, de amizades que não são abaladas, de distâncias que não são superadas: entre pessoas, lugares, culturas. Distâncias entre o menino e o adulto, entre o passado e o presente. Distâncias no tempo e no espaço.

1 comentários:

Nayra Garofle disse...

Eu amei o livro! Estou louca para ver o filme! Recomendo a leitura!